The evolution of the treasury in Brazil, with Rubens Garcia
The cashier is king: the treasury space is born in Brazil. Episode 1 hosts Rubens Garcia, an icon with 40 years of experience in large companies.

Rubens Garcia é profissional de finanças e tesouraria com quase 40 anos de experiência. Ex-Gerente de Tesouraria na Pirelli e advisor na Della Via Pneus, é uma referência ativa na comunidade de tesoureiros no Brasil, com participação de longa data no IBEF e no IBTC.
Curious how top finance leaders are actually using AI and what do the experts think? Hear what Wharton's FP&A Director, Christian Wattig, has to say about the real impact of AI and machine learning in finance in this next installment of our Path to CFO Series.
In this session, Christian will explore how finance teams are using machine learning and generative AI to drive smarter decision-making, improve team efficiency, and identify risks and opportunities earlier. You'll get real-world examples, key considerations for first-time AI adoption, and practical insights to help your team use these tools effectively—whether you're just getting started or ready to scale.

What you'll learn
- Hear firsthand examples of how machine learning has been used in finance leadership roles to drive better decision-making.
- Discover the key factors finance teams must consider when adopting machine learning models for the first time.
- Find out how generative AI can help finance teams become more efficient.
- Learn to use AI for advanced finance use cases such as identifying potential risks and opportunities.
Imagens do episódio


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Banco, gestora, empresa: o que cada lado ensina sobre risco
Tem uma frase que o Carlos Moreno solta quase de passagem durante a conversa, e que sintetiza a lógica de toda a sua carreira: caixa é oxigênio. Se falta, a empresa para de respirar. É um princípio simples, quase óbvio, mas que ganha peso quando dito por alguém que passou metade da carreira do lado do banco — estruturando funding, precificando risco, vendendo derivativo — e a outra metade aprendendo a olhar esse mesmo risco do lado de quem realmente sustenta a operação: a empresa.
Neste episódio do O Caixa é Rei, Douglas Oliveira recebe Carlos Moreno, head de Tesouraria e Risco da Casa dos Ventos. Engenheiro do ITA, mestre em Finanças pela London Business School, passagens por Itaú, Santander, JP Morgan e Standard Bank em São Paulo e Londres — e, depois de quase duas décadas no mercado financeiro, a travessia para a economia real. A conversa percorre essa trajetória não como linha do tempo, mas como camadas de aprendizado: o que cada cadeira ensinou sobre risco, sobre método e sobre o que de fato sustenta uma tesouraria.
O que fica é um retrato raro de um profissional que se recusa a ficar no lugar comum — e que defende, com a serenidade de quem já errou bastante, que tesouraria é gestão de balanço, é processo, é leitura macro e, sobretudo, é tradução.
Do ITA ao mercado financeiro: a lógica de quem pergunta por quê
Carlos começa pelo começo. O ITA, as oito cadeiras de matemática, o estágio no Itaú, o salto para o Santander logo na sequência. Lembra que, na sua geração, era natural o engenheiro ir para banco. O que parecia ser uma escolha de prateleira, no entanto, escondia uma vocação mais profunda: gostar de número, de problema e, principalmente, de entender de onde as coisas vêm.
É essa pergunta — de onde vem isso? — que vira fio condutor da carreira inteira. No JP Morgan de Londres, virou quase apelido. Em qualquer cadeira por onde passou, era a forma de não executar no automático. E é também o que ele recomenda para quem está começando: ser chato, perguntar até entender, não aceitar a resposta pronta. Para o engenheiro que vira tesoureiro, raciocínio crítico vale mais que qualquer fórmula decorada.
Por que sair do lugar comum
Quando Douglas pergunta o que ele aprendeu com a pluralidade de casas por onde passou — banco comercial, banco de investimento, banco de câmbio, gestora — Carlos é direto: o que mais o incomoda é o status quo. A cada cadeira, uma vez aprendido o que tinha para aprender e entregue o que tinha para entregar, vem a inquietação. Não pela grana, ele faz questão de marcar, mas pela necessidade de continuar agregando — para a empresa e para si mesmo.
Foi assim que migrou de risco de mercado para front office, de structured solutions para funding internacional, de produto sob medida para produto de prateleira em uma operação de banco de câmbio. Cada movimento somou skill, repertório de produto, rede de relacionamento. E, em um deles, a primeira experiência com gestão de pessoas — que ele descreve com honestidade: uma porrada no início para quem tem cabeça cartesiana, mas é assim que se aprende que dois e dois, no ser humano, dá cinco.
É uma defesa elegante da carreira não linear. Sair do lugar comum é um risco que se compra. Ficar onde está, na maioria das vezes, é o caminho mais fácil — e o que menos ensina.
MBA, maturidade e o tempo que não volta
O mestrado em Londres aparece como uma decisão consciente de fundamento. Carlos sentia que faltava base sólida em finanças — ele sabia operar, mas queria entender de onde vinha cada peça do Lego. Escolheu London Business School pelo nível, pelo networking, pela imersão. E faz uma reflexão valiosa sobre timing: não existe fórmula, mas existe maturidade. Não etária, mas a capacidade de chegar sabendo o que se quer extrair daquela experiência.
Hoje, olhando para trás, ele faria algumas eletivas diferentes — trocaria parte do conteúdo ultra quant por algo mais voltado a negócio e liderança. Mas não se arrepende: o tempo é o ativo mais escasso, e MBA mal aproveitado é tempo jogado fora. Para quem pensa em fazer, o recado é claro: tem que ter maturidade, disponibilidade e vontade. Sem os três, vira presença.
ALM, método e o hedge que ninguém quer fazer na hora certa
Quando a conversa entra em ALM — asset liability management — Carlos abre uma das partes mais densas do episódio. Tesouraria é gestão de balanço. Não dá para fazer hedge sem ter, antes, o mapa correto das exposições. E esse mapa só existe se a tesouraria for, de fato, transversal: conversar com quem está importando máquina, com quem estrutura dívida, com quem cuida do planejamento, com quem desenha o hedge accounting para evitar volatilidade artificial no resultado.
Sobre instrumentos, ele defende a simplicidade. NDF e opção resolvem a maior parte do trabalho de um importador ou exportador — desde que combinados com método. E é aí que mora o ponto mais provocativo: muita gente só começa a fazer hedge quando o dólar já está explodindo. Deveria ser o contrário. Quando o dólar cai, o importador acelera; quando sobe, o exportador trava. O hedge é seguro, e seguro se contrata antes do sinistro, não depois.
Há também o componente comportamental: hedge bem feito pode parecer prejuízo quando se olha só para o derivativo. Mas o que se perde no instrumento, se ganha no objeto — e vice-versa. O trabalho do tesoureiro é justamente sair da aposta, travar a oscilação e, sobretudo, comunicar internamente que proteção é resultado, não custo.
Banco x economia real: o mesmo risco, outra língua
A pergunta inevitável: o que muda quando o profissional de risco sai do banco e vai para uma empresa? Carlos é cirúrgico. Em fundamento, risco é risco. O que muda é o tipo de exposição, a complexidade e, sobretudo, a língua que se fala dentro de casa.
No banco, todo mundo fala a mesma língua. NDF, swap, hedge accounting, ajuste diário — tudo natural. Na empresa, é preciso traduzir. E, antes de traduzir, é preciso muitas vezes estruturar do zero: política, processo, governança, parâmetros, autonomia para o tesoureiro executar dentro de limites bem definidos. O maior desafio da travessia, na visão dele, é menos técnico e mais educacional. É convencer, didatizar, mostrar para áreas não financeiras por que aquele hedge importa.
Ele cita a brincadeira com a esposa, dentista, como termômetro: se ela entendeu a explicação, está didático o suficiente. É um teste simples, mas que muito tesoureiro técnico ignora — e paga o preço em comitê.
Quem passou pelo banco negocia diferente
Quando Douglas pergunta o que ele recomendaria a quem pensa em fazer essa travessia, Carlos é taxativo: passar por banco é uma vantagem que dificilmente se constrói por outro caminho. Não pela técnica em si, mas porque você aprende a entender os custos do banco. Sabe quanto vale o funding, sabe como o capital é alocado, sabe por que cada banco tem um apetite diferente em cada momento do ciclo.
Resultado prático: na hora de negociar, não precisa pedir preço para botar. Já sabe qual é o preço justo. Sabe onde dá para apertar e onde não faz sentido brigar. Negociação vira técnica, não feeling. E, importante, ele faz questão de marcar: não é sobre ser o cara chato que chora taxa. É sobre construir relação longeva, em que os dois lados saem bem. O banco percebe rápido quem é quem.
O caminho inverso, ele lembra, também acontece — e funciona. Mas a passagem pelo banco dá um chip de negociação técnica que se carrega para sempre.
Ambiente regulado: trava ou liberdade para criar?
Mercado financeiro e setor elétrico têm algo em comum: regulação pesada em todas as camadas. Para muita gente, isso é sinônimo de trava. Carlos defende o contrário. Quando a norma é clara e o arcabouço é inteligente, há espaço enorme para criar — desde que se conheça a regra a fundo. O Banco Central brasileiro, com Pix, SPB, TED, é exemplo de regulação que sustenta solidez e, ao mesmo tempo, permite inovação. O mercado livre de energia caminha por lógica parecida: abrir, democratizar, sem perder o controle.
O ponto contraintuitivo é esse: ambiente regulado não tira a liberdade de empreender. Pelo contrário, dá clareza de onde a oportunidade está. Quem conhece a norma, conecta os pontos.
Caixa é oxigênio
No fim, voltando ao nome do podcast, Douglas pergunta quando o caixa virou, de fato, princípio. A resposta de Carlos vem carregada de viés de risco — e ele próprio reconhece isso com graça. Caixa é oxigênio. Empresa também precisa de reserva de emergência, num horizonte longo o suficiente para atravessar o ciclo. Não basta olhar EBITDA: tem que olhar o caixa operacional, a alavancagem, a curva de juros, o setor, o estágio do investimento.
Ele lembra Lehman, lembra a explosão do dólar para 6,30, lembra que risco de liquidez muitas vezes nasce de risco de mercado — e que tesouraria existe justamente para antecipar esses cenários. Não para adivinhar. Para ter método.
O episódio é um convite para quem está em qualquer ponta dessa cadeia: começando carreira, pensando em mestrado, avaliando a travessia do banco para a empresa, ou simplesmente tentando estruturar uma política de risco que faça sentido. Carlos entrega princípios, não receita. E, no caminho, mostra que o tesoureiro que cresce de verdade é o que pergunta por quê, sai do lugar comum e aprende a falar a língua de quem está do outro lado da mesa.
Sobre o convidado
Head de Tesouraria e Risco da Casa dos Ventos. Engenheiro formado pelo ITA, com mestrado em Finanças pela London Business School, construiu carreira sólida no mercado financeiro — passando por Itaú, Santander, JP Morgan e Standard Bank, em São Paulo e Londres — antes de migrar para a tesouraria corporativa.
🎧 Ouça o episódio completo:
O Caixa é Rei é um projeto da Datanomik com apoio da AFP Brasil. Criamos pontes entre profissionais de finanças e tesouraria para compartilhar experiências que inspiram e transformam.

Além da tesouraria: como o caixa prepara o líder de finanças
Há uma frase que atravessa toda a conversa com Roberto Toffano e que poderia muito bem servir de epígrafe para qualquer profissional de finanças: não queira saber um pouquinho de tudo. A provocação, dita quase no fim do episódio, resume a filosofia de carreira de um executivo que construiu trajetória em empresas como Itaú, Usiminas e, hoje, Stellantis Locadora, atravessando setores tão distintos quanto mineração, siderurgia, logística e automotivo.
Carioca aminerado em Belo Horizonte, Toffano conversa com Douglas Oliveira sobre o que aprendeu ao migrar de uma cadeira historicamente associada ao caixa, ao câmbio e à dívida para uma posição financeira mais generalista, com responsabilidade sobre o resultado da companhia. O fio condutor do episódio é a transição — nem sempre óbvia, raramente fácil — entre ser um especialista de tesouraria e assumir o papel de líder financeiro de um negócio.
O resultado é uma conversa densa sobre formação, relacionamento, gestão de risco e, principalmente, sobre o que diferencia o profissional que cresce daquele que estaciona na profundidade do próprio dia a dia.
A mesa como porta de entrada — e o tecniquês como armadilha
Toffano começou em finanças quase por acaso. Veio do comercial de varejo do Itaú, onde aprendeu que cada cliente é único e que finanças, no fundo, é relacionamento. O trainee na Usiminas o levou para a mesa de operações, onde passou um tempo significativo operando câmbio, derivativos e aplicações.
É um caminho que se repete entre tesoureiros experientes — e Toffano explica por quê. A mesa entrega uma visão de risco difícil de conseguir em outro lugar: câmbio, commodities, juros, exposição a instituições financeiras. Para quem vai trabalhar com tesouraria corporativa, é um laboratório de variáveis que afetam o caixa em tempo real.
Mas há uma contrapartida pouco discutida. O tecniquês, alerta ele, pode se tornar uma barreira. Falar de NDF, swap e cupom cambial é parte do ofício, mas o profissional que não traduz isso para as demais áreas perde capacidade de influenciar o negócio. A mesa forma, mas também isola — e cabe ao tesoureiro fazer a ponte.
De cadeia de valor a cadeia de aprendizado
Olhando para trás, Toffano percebe que seus setores foram um acaso geográfico transformado em complementaridade rara. Mineração, siderurgia, logística e, agora, automotivo: a cadeia de valor inteira, vista pelos olhos da tesouraria.
Cada elo trouxe um risco específico. O preço do minério. O combustível na logística. O efeito de tudo isso na produção de um veículo. Para um profissional de finanças, ter atravessado essa cadeia é mais do que currículo — é um mapa mental sobre como o dinheiro circula entre setores, como as variáveis macro se traduzem em decisões de capital de giro e como uma multinacional gerencia risco em diferentes camadas da cadeia produtiva.
É também o tipo de bagagem que dá densidade à conversa quando o assunto deixa de ser tesouraria e passa a ser estratégia financeira.
Mestrado profissional: por que sair da bolha das finanças
A escolha de Toffano por um mestrado profissional na Fundação Dom Cabral, em vez de um programa tradicional em finanças, soa contraintuitiva — e é justamente esse o ponto. Depois de anos com CFOs, diretores e gerentes como professores informais dentro das empresas, ele buscou algo diferente: ampliar a visão para liderança, estratégia, finanças verdes, agenda social.
Há também uma reflexão importante sobre o timing dessas decisões. Fazer um MBA aos 26 anos, recém-formado, com pouca bagagem para criticar o que se aprende, entrega menos valor do que esperar a maturidade profissional. Quem já tem espinha dorsal de carreira chega à sala de aula com perguntas reais, casos vividos e capacidade de testar conceitos contra a própria experiência.
Toffano e Douglas convergem nesse ponto: o título importa menos que o conhecimento. E o conhecimento, para gerar retorno, precisa encontrar um profissional preparado para absorvê-lo.
A tesouraria como área do "como", não do "não"
Um dos momentos mais provocadores do episódio é quando Toffano contesta um estereótipo conhecido: o de que finanças é a área do não. Pior — o de que a tesouraria é a área que freia.
A inversão que ele defende é simples e poderosa. Em vez de bloquear, a tesouraria deveria responder ao "como". Como financiar a compra do novo equipamento? Como estruturar o capital para um projeto que vai gerar resultado por dez anos? Como casar custo de capital com potencial de retorno do ativo?
Essa cabeça de business partner — termo que ele credita ao colega Paulo Oliveira — muda completamente a relação com áreas comerciais, de marketing e operações. O tesoureiro deixa de ser o guardião do orçamento e passa a ser o arquiteto financeiro do crescimento. É uma mudança de postura que exige comunicação, abertura e disposição para entrar no negócio em vez de se proteger atrás do tecniquês.
O que falta ao tesoureiro virar CFO
Quando Douglas pergunta o que Toffano não sabia antes de assumir uma posição mais generalista, a resposta é honesta: não sabia que planejamento financeiro era tão interessante, nem que contabilidade era tão profunda. O reconhecimento traz uma lição embutida.
A kriptonita do tesoureiro, segundo ele, é o risco de mercado — não o risco de mercado financeiro, com o qual o tesoureiro convive diariamente, mas o risco setorial, o risco do negócio em si. Quem passa a vida olhando câmbio, juros e commodities pode subestimar variáveis operacionais, comerciais ou regulatórias que decidem o futuro da companhia.
É um ponto delicado porque a rotina da tesouraria é absorvente. O volume de operações, a velocidade das decisões e a necessidade de resposta imediata podem aprisionar o profissional numa lente de curto prazo. E é justamente essa lente que precisa ser ampliada quando se assume a cadeira do resultado.
Toffano e Douglas convergem ainda em uma outra observação. O profissional de tesouraria tende a uma rotatividade menor do que os de FP&A e controladoria — talvez justamente porque olha menos para fora. Menos exposição, menos oportunidades. A receita de saída, então, é deliberada: ser intencional, vocalizar o desejo de transição, buscar exposição.
Relacionamento bancário com método — não com glamour
Há um trecho do episódio que merece destaque para qualquer profissional de tesouraria, em qualquer porte de empresa. Toffano insiste que o relacionamento bancário é, sim, glamouroso — e isso é parte da sedução perigosa. Sentar com um banco para fazer um negócio de um ano é fácil. Construir um relacionamento que sobreviva a três, cinco, dez anos exige outra coisa.
Exige método. Exige enviar balanço, marcar café, mostrar a operação ao analista de crédito, dar visibilidade ao officer quando não há nada para pedir. Exige construir confiança nas pequenas coisas, para que ela esteja disponível nos momentos difíceis. Para empresas de médio porte que ainda não acessam o mercado de capitais, esse é um diferencial competitivo silencioso — e barato.
Douglas reforça com uma confissão de orgulho: tem officers com quem trabalha há dez anos, em empresas que nem existem mais. O ponto é o mesmo. Relacionamento é ativo, e ativo precisa ser cuidado com disciplina.
O caixa decide — e a pandemia provou
Quando perguntado sobre o momento em que percebeu que o caixa, no fim, é o que decide tudo, Toffano não hesita. A pandemia. Foi ali, com mecanismos de colchão de liquidez, revolving credit facilities e relacionamento de crédito bem construído, que a tesouraria mostrou para que serve. Empregos foram preservados, negócios continuaram de pé, e tudo aquilo que parecia teoria virou prática urgente.
É o tipo de aprendizado que não cabe num MBA. É a confirmação de que tesouraria bem feita não é despesa — é seguro. E que o profissional que entende isso carrega, para qualquer cadeira futura, uma sensibilidade que CFOs vindos exclusivamente de controladoria ou FP&A talvez precisem aprender no susto.
Profundidade como projeto de carreira
O fechamento do episódio é quase um manifesto. Toffano olha para a geração que está chegando — ansiosa, exposta à inteligência artificial, tentada por respostas rápidas — e oferece um conselho contraintuitivo: especialize-se. Não queira saber um pouco de tudo. Encontre algo que faça o olho brilhar e vá fundo.
A IA, segundo ele, é poderosa, mas sedutora. Pode entregar uma falsa profundidade, uma resposta que parece completa mas não sustenta cinco porquês de pressão. O profissional que delega o raciocínio perde a capacidade crítica. O que usa como ferramenta de produtividade, ganha alavancagem.
Não ser raso, no fim, é o que separa o profissional que cresce do que estaciona. E talvez seja essa a melhor síntese da conversa: a tesouraria pode até ser a escola, mas é a profundidade — técnica, relacional, de risco e de negócio — que define quem chega ao topo.
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Negócios e caixa: mudanças para o gestor financeiro
De engenheiro eletricista a líder de tesouraria: o que muda quando você troca de indústria, de cadeira e de velocidade
O Brasil tem mais de 1.300 atividades econômicas registradas. A gestão de caixa não é igual em nenhuma delas. O ciclo de conversão de uma companhia aérea não se parece em nada com o de uma empresa de infraestrutura, que por sua vez não tem relação com o de uma startup de tecnologia. E poucos profissionais viveram essa diversidade tão de perto quanto Joelmir Silvestre.
Neste episódio do O Caixa é Rei, recebemos Joelmir — engenheiro eletricista de formação que nunca atuou como engenheiro, mas que levou a capacidade de estruturar e resolver problemas para uma carreira plural em finanças corporativas, passando por controladoria, FP&A, relações com investidores e tesouraria em setores que vão de aviação a infraestrutura e tecnologia.
Engenharia como fundação, finanças como destino
Joelmir descobriu ainda na faculdade que não queria ser engenheiro para a vida. Mas a formação em engenharia elétrica deixou marcas duradouras: base forte de cálculo, raciocínio estruturado para resolver problemas e capacidade de decompor sistemas complexos. Ferramentas que se traduzem diretamente para o mundo de finanças corporativas.
Sua primeira experiência profissional já foi em finanças — reconciliação de caixa na controladoria. Dali migrou para FP&A, onde passou boa parte da carreira trabalhando com planejamento financeiro, orçamento e custos. A tesouraria só entrou há cerca de dez anos, numa movimentação lateral que exigiu trocar completamente a frequência de operação.
A chave que liga e desliga: curto prazo versus longo prazo
A transição de FP&A para tesouraria foi o momento mais marcante da carreira de Joelmir. Em planejamento financeiro, o ritmo é de meses e anos — projeções de longo prazo, modelagem, conexão profunda com o negócio. Na tesouraria, há problemas que precisam ser resolvidos em minutos e projetos que levam mais de um ano para maturar, e os dois convivem no mesmo dia.
Joelmir descreve isso como uma chave que você precisa ficar ligando e desligando o tempo inteiro. E alerta: o caminho de menor fricção é ser engolido pelo curto prazo. As urgências sempre aparecem, e se você deixar no piloto automático, os projetos estruturais nunca avançam. A saída é dividir a equipe com clareza — gente focada no imediato, gente protegida para olhar adiante.
Tesouraria, FP&A e contabilidade: três idiomas que não se entendem
Uma das reflexões centrais do episódio é o gap de conhecimento entre as áreas de finanças. Joelmir é direto: a tesouraria ganharia muito entendendo mais de FP&A e de contabilidade. E o FP&A ganharia entendendo como funciona o ciclo de caixa. Hoje, o que acontece na prática é que uma área fala e a outra recebe uma tradução incompleta — como se comunicassem em idiomas diferentes sem ninguém ser bilíngue.
O exemplo é concreto: é muito difícil fazer uma projeção de caixa decente sem entender o framework contábil da empresa. E quando alguém pergunta se a empresa deveria captar dívida indexada a IPCA, CDI ou pré-fixada, quem responde sem entender o negócio por trás está sendo irresponsável.
Trocar de indústria: venenos diferentes, antídotos diferentes
Com passagens por setores tão distintos quanto aviação, infraestrutura e tecnologia, Joelmir mapeia diferenças que vão muito além do óbvio. Uma companhia aérea é B2C com milhões de clientes e interface pesada com meios de pagamento. Uma empresa de infraestrutura é B2B com poucas dezenas de contratos onde cada um importa individualmente. Uma empresa de tecnologia é parte da experiência do próprio cliente — a tesouraria precisa garantir que o fluxo de pagamentos funcione sem fricção para o negócio do cliente rodar.
O ciclo de capex também muda radicalmente. Em infraestrutura, projetos levam anos para maturar e existe um capex de manutenção que, se negligenciado, cobra a conta lá na frente. Em tecnologia, o desafio é acompanhar o crescimento do cliente sem controlar quanto ele vai crescer. São dores diferentes — e exigem remédios diferentes.
Resultado contábil não paga conta
Joelmir fecha o episódio com uma experiência recente e visceral: acompanhar uma reestruturação empresarial causada fundamentalmente por falta de caixa. A empresa gerava EBITDA com margem superior a 20%, mas a estrutura de capital era inadequada para o porte da companhia. O serviço da dívida e a necessidade de capex superavam a geração operacional. O EBITDA dizia uma coisa; o caixa dizia outra.
A lição é clara: EBITDA é uma fotografia, não o filme. E no Brasil, onde existe uma tendência a idolatrar esse indicador, a distância entre geração de EBITDA e geração de caixa livre pode ser a diferença entre uma empresa saudável e uma reestruturação.
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O Caixa é Rei é um projeto da Datanomik. Criamos pontes entre profissionais de finanças e tesouraria para compartilhar experiências que inspiram e transformam.
