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Selic a 14,75%: O Que o Primeiro Corte em Dois Anos Significa para a Tesouraria Corporativa

Copom reduz Selic para 14,75% após dois anos. Entenda os impactos na gestão de caixa, crédito e hedging da tesouraria corporativa.

Selic a 14,75%: O Que o Primeiro Corte em Dois Anos Significa para a Tesouraria Corporativa

Em 18 de março de 2026, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil fez o que o mercado aguardava com ansiedade: reduziu a taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano. Pode parecer um ajuste modesto — apenas 0,25 ponto percentual — mas o peso simbólico e prático dessa decisão é imenso. Trata-se do primeiro corte em dois anos, sinalizando o início de um ciclo de afrouxamento monetário em meio a um cenário global turbulento, marcado pelo conflito no Oriente Médio e pela guerra tarifária entre Estados Unidos e China.

Por Que Este Corte Importa Tanto para a Tesouraria

Para os profissionais de tesouraria corporativa, a taxa Selic é muito mais do que um indicador macroeconômico — ela é a referência direta para o custo do capital, a rentabilidade das aplicações financeiras e o preço das linhas de crédito. Após quase dois anos com a Selic estacionada em 15%, muitas empresas brasileiras reestruturaram suas operações de caixa para conviver com juros restritivos. Agora, a mudança de direção exige uma recalibração estratégica.

Segundo o Boletim Focus divulgado na semana passada, as projeções do mercado apontam para uma Selic de 12,5% ao final de 2026, o que representaria uma queda acumulada de 2,5 pontos percentuais. Embora o Banco Central tenha adotado um tom cauteloso — condicionando os próximos passos à evolução da inflação e ao cenário externo — a trajetória descendente parece clara, conforme reportado pela InfoMoney e pelo Poder360.

O Cenário Que Moldou a Decisão

1. Inflação em Desaceleração Gradual

O IPCA de março registrou 0,88%, com acumulado de 4,14% em 12 meses — ainda acima da meta de 3%, mas em trajetória de convergência. O mercado revisou a projeção para 4,36% em 2026, dentro da banda de tolerância de 4,5%, segundo dados da Agência Brasil.

2. Real Fortalecido

O dólar recuou para abaixo de R$ 5,00 — menor nível desde maio de 2024 — impulsionado pela redução das tarifas americanas sobre produtos brasileiros após decisão da Suprema Corte dos EUA. Nos últimos 12 meses, o real se valorizou 14,66%, criando um ambiente cambial mais favorável para importadores e para a estabilidade de preços, conforme dados do Investing.com e Trading Economics.

3. Guerra Tarifária e Oportunidade Comercial

A redução da tarifa média americana sobre o Brasil em 13,6 pontos percentuais beneficiou cerca de US$ 21,6 bilhões em exportações brasileiras, segundo a CNI. Ao mesmo tempo, as tensões entre EUA e China continuam a redirecionar fluxos comerciais, com o Brasil posicionado como fornecedor alternativo de commodities — o que sustenta o fluxo de dólares e pressiona a valorização do real, segundo análises do Blog do IBRE da FGV e da CNN Brasil.

Impactos Práticos na Tesouraria Corporativa

Gestão de Caixa e Aplicações

Com a Selic em queda, a rentabilidade de aplicações atreladas ao CDI começa a diminuir. Tesoureiros que mantêm volumes expressivos em CDBs, compromissadas ou fundos DI devem avaliar a migração gradual para instrumentos prefixados ou atrelados à inflação, travando taxas mais altas enquanto o ciclo de cortes ainda está no início. A janela de oportunidade para alongar a duration das carteiras de investimento é agora.

Empresas com caixa elevado podem considerar a alocação parcial em NTN-Bs (Tesouro IPCA+), que oferecem proteção contra a inflação com prêmios atrativos no cenário atual.

Custo de Crédito e Refinanciamento

A queda da Selic tende a se refletir gradualmente nas taxas de empréstimos corporativos. Empresas com dívidas atreladas ao CDI verão um alívio progressivo nos encargos financeiros. Já aquelas com passivos prefixados contratados durante o pico dos juros devem avaliar oportunidades de refinanciamento ou pré-pagamento, dependendo das condições de multa e da expectativa de novas quedas.

É fundamental que as equipes de tesouraria revisem suas projeções de fluxo de caixa incorporando cenários com a Selic entre 13% e 12,5% ao final do ano, conforme as projeções da Anbima.

Estratégias de Hedging Cambial

O fortalecimento do real traz alívio para empresas com exposição em dólar no passivo, mas representa um desafio para exportadores. Com o USD/BRL abaixo de R$ 5,00, exportadores devem reavaliar suas posições de hedge para proteger receitas futuras contra uma eventual continuidade da apreciação cambial. Instrumentos como NDFs (Non-Deliverable Forwards) e opções de câmbio ganham relevância neste cenário.

Para importadores, o momento pode ser oportuno para travar custos futuros em câmbio, aproveitando o real valorizado antes de possíveis reversões ligadas à volatilidade global.

Reforma Tributária e o Split Payment

Além do cenário macroeconômico, a tesouraria corporativa enfrenta um desafio estrutural em 2026: o início da fase de transição da Reforma Tributária, com a implementação do CBS e IBS. O mecanismo de split payment — que retém a parcela do imposto diretamente no momento da transação — tem potencial para reduzir significativamente a liquidez de curto prazo das empresas. Em um ambiente de juros ainda elevados, mesmo em queda, a perda de float tributário exige planejamento rigoroso de capital de giro.

Recomendações Práticas

1. Revisar a Política de Investimentos

Diversifique entre pós-fixados, prefixados e indexados à inflação. Aproveite o início do ciclo para travar taxas mais altas em instrumentos de médio prazo.

2. Simular Cenários de Crédito

Modele o impacto de uma Selic entre 12,5% e 14% sobre o custo das dívidas existentes e identifique janelas de refinanciamento.

3. Atualizar o Hedge Book

Com o real forte, reavalie exposições cambiais. Exportadores devem considerar proteção adicional; importadores podem travar custos favoráveis.

4. Preparar-se para o Split Payment

Mapeie o impacto da retenção tributária automática sobre o fluxo de caixa e ajuste as necessidades de capital de giro.

5. Monitorar o Cenário Externo

O conflito no Oriente Médio e a guerra comercial EUA-China seguem como riscos que podem alterar a trajetória dos juros e do câmbio. Mantenha dashboards atualizados e gatilhos de ação definidos.

Conclusão

O corte da Selic para 14,75% não é apenas uma notícia econômica — é um sinal de virada que demanda ação imediata dos profissionais de tesouraria. O ciclo de afrouxamento que se inicia, combinado com um real fortalecido e a transição tributária, cria um cenário complexo onde oportunidades e riscos coexistem. As empresas que agirem proativamente — revisando políticas de investimento, otimizando estruturas de dívida e ajustando estratégias de hedge — estarão melhor posicionadas para capturar valor neste novo capítulo da política monetária brasileira.

Fontes: Banco Central do Brasil, Agência Brasil, InfoMoney, Poder360, CNN Brasil, Seu Dinheiro, Investing.com, Blog do IBRE/FGV, Anbima, Gazeta do Povo.

Imagens do episódio

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6 min
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25.05.2026

Quanto uma empresa com receita pública poderia perder se não antecipar os efeitos do bloqueio de R$ 23,7 bilhões no Orçamento

Por

Na última sexta-feira (22), os Ministérios da Fazenda e do Planejamento anunciaram um bloqueio adicional de R$ 22,1 bilhões em gastos não obrigatórios do Orçamento de 2026. Conforme reportado pela CNN Brasil, o congelamento total do ano já chega a R$ 23,7 bilhões. E nesta sexta-feira (30) será divulgado o PIB do primeiro trimestre — que, segundo o InfoMoney, o JPMorgan projeta crescer a uma taxa anualizada de 3,6%, porém com desaceleração à frente.

Essa combinação — governo cortando gastos de um lado e economia ainda resiliente do outro — cria um cenário traiçoeiro para tesourarias corporativas. Imagine uma empresa de médio porte que depende, mesmo que parcialmente, de contratos públicos ou de setores irrigados pelo gasto estatal. Quanto de caixa estaria em risco se ela não se antecipasse a esse aperto?

O cenário: o que o bloqueio de R$ 23,7 bilhões realmente significa

Segundo a Agência Brasil, os recursos foram bloqueados para cumprir o limite de gastos do arcabouço fiscal, que permite crescimento das despesas de até 2,5% acima da inflação. O gatilho foi a revisão para cima das despesas obrigatórias: o BPC aumentou R$ 14,1 bilhões e os benefícios previdenciários subiram R$ 11,5 bilhões em relação à estimativa anterior.

Na prática, o governo precisa apertar os gastos discricionários — aqueles que incluem investimentos em infraestrutura, compras públicas, convênios e repasses a estados e municípios. O detalhamento de quais ministérios sofrerão cortes sairá em decreto no dia 29 de maio. A projeção oficial de superávit primário subiu de R$ 3,5 bilhões para R$ 4,1 bilhões, mas esse número desconsidera precatórios — com eles, o déficit primário estimado é de R$ 60,3 bilhões.

O exercício: uma empresa de infraestrutura com 30% de receita pública

Considere o cenário de uma construtora ou fornecedora de serviços de infraestrutura de médio porte com as seguintes premissas:

• Faturamento anual: R$ 200 milhões
• Receita proveniente de contratos públicos (federais e estaduais): 30%, ou R$ 60 milhões/ano
• Ciclo médio de recebimento do setor público: 90 dias
• Custo de capital de giro (CDI + spread): ~16% a.a.
• Equipe de tesouraria: 4 pessoas, dedicando ~40% do tempo a conciliação e cobrança de recebíveis públicos

Se o bloqueio orçamentário atrasar em 30 dias adicionais o ciclo de pagamentos — hipótese razoável em anos de contenção fiscal —, essa empresa teria R$ 60 milhões ÷ 12 × 1 mês = R$ 5 milhões adicionais presos em contas a receber. A um custo de 16% a.a., financiar esse gap custaria estimativamente R$ 800 mil/ano em juros extras.

Os três vetores de impacto na tesouraria
1. Descasamento de caixa e necessidade de linhas emergenciais

Se a empresa implementasse um monitoramento diário dos empenhos e liquidações dos seus contratos públicos, poderia antecipar em semanas a decisão de recorrer a linhas de crédito rotativo. A diferença entre captar capital de giro com planejamento (negociando CDI + 2%) versus em emergência (CDI + 5% ou mais) representaria, sobre os R$ 5 milhões do exemplo, uma economia da ordem de R$ 150 mil por episódio de estresse.

2. Rebalanceamento do portfólio de investimentos

Com R$ 23,7 bilhões bloqueados, o governo poderia atrasar inclusive o pagamento de precatórios e restos a pagar — o que afeta indiretamente a liquidez de toda a cadeia. Uma tesouraria que mantivesse, digamos, 70% das suas aplicações financeiras em papéis de longo prazo estaria exposta a um resgate forçado com perda de marcação a mercado. Se a empresa rebalanceasse proativamente para 50% em LFTs/CDBs de liquidez diária, a perda evitada poderia chegar a ~0,3% sobre o montante investido — em uma posição de R$ 20 milhões, isso significaria até R$ 60 mil preservados.

3. Visibilidade sobre contas bancárias e fluxo de caixa

Uma empresa com contratos públicos tipicamente opera com múltiplas contas bancárias — uma para cada contrato, convênio ou esfera de governo. Se essa empresa hipotética tivesse 12 contas em 4 bancos diferentes, a equipe de tesouraria gastaria estimativamente 8 a 10 horas semanais apenas consolidando extratos bancários e verificando créditos. Com automação via conectividade bancária, esse tempo poderia cair para 1 a 2 horas — liberando a equipe para análises que de fato protegem o caixa.

O paradoxo PIB forte + governo apertado

A semana traz mais um ingrediente de complexidade. A Fazenda manteve sua projeção de PIB em 2,3% para 2026, enquanto o Boletim Focus aponta 1,85%. Já o JPMorgan estima que o primeiro trimestre cresceu a 3,6% anualizado, mas projeta desaceleração a partir do segundo semestre, citando "deterioração das margens do setor corporativo" e "condições financeiras mais apertadas" entre os fatores.

Para a tesouraria, esse paradoxo se traduz em um cenário onde a receita do setor privado ainda pode sustentar o primeiro semestre, mas a receita pública tende a minguar. Se a empresa do nosso exercício dependesse igualmente dos dois canais, o risco seria subestimar o impacto combinado: crescimento desacelerando no 2S26 + pagamentos públicos atrasando = duplo estrangulamento de caixa justamente quando o custo de crédito segue elevado.

Lições para qualquer empresa exposta ao gasto público

Mapeie sua exposição real. Muitas empresas não dependem diretamente do governo, mas vendem para fornecedores que dependem. Subcontratadas de grandes empreiteiras, distribuidoras de materiais para hospitais públicos, empresas de TI com contratos estaduais — todas seriam afetadas pelo aperto discricionário, mesmo sem perceber de imediato.

Construa cenários de estresse no fluxo de caixa. Se 30% da receita atrasasse 30 dias, qual seria o gap? E se fossem 60 dias? Tesourarias que modelam esses cenários semanalmente, e não apenas no fechamento mensal, conseguiriam reagir com semanas de antecedência.

Negocie linhas preventivas agora. Com a Selic ainda em patamar restritivo e os bancos mais seletivos após o caso do Banco Master e as novas regras do FGC, o custo de captar em emergência tende a ser significativamente maior do que o de manter linhas pré-aprovadas ociosas.

Automatize a conciliação. Cada hora que a equipe de tesouraria gasta verificando manualmente se um crédito de contrato público caiu na conta é uma hora que ela não está analisando cenários, renegociando condições ou protegendo margens.

Conclusão: o cálculo é ilustrativo, mas o risco é real

Os números deste exercício são projeções baseadas em premissas razoáveis, não resultados históricos. Cada empresa terá seu mix de exposição pública, seu custo de capital e sua capacidade operacional. Mas o recado macro é inequívoco: R$ 23,7 bilhões bloqueados no Orçamento não são uma abstração — representam atrasos concretos em pagamentos que alimentam o caixa de milhares de empresas brasileiras.

A Datanomik endereça exatamente esse tipo de desafio de ponta a ponta. A centralização de extratos de múltiplos bancos em uma única plataforma, o monitoramento em tempo real de créditos e débitos, a visibilidade integrada do portfólio de investimentos e a automação de conciliação bancária permitem que a tesouraria saia do modo reativo e entre no modo preditivo — o que, em um cenário de contenção fiscal como o atual, pode ser a diferença entre antecipar o problema e ser atropelado por ele.

Faça o exercício com os números da sua operação. E se quiser rodar esse cálculo com dados reais e visibilidade integrada, a plataforma da Datanomik é o ponto de partida.

6 min
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25.05.2026

Reforma tributária e split payment: 5 mitos que podem custar caro à sua tesouraria em 2026

Por

O Decreto nº 12.955/2026, publicado em 29 de abril, regulamentou a CBS. Um dia depois, a Resolução CGIBS nº 6/2026 fez o mesmo com o IBS. A partir de 1º de agosto de 2026, inconsistências nos documentos fiscais eletrônicos passam a sujeitar o contribuinte a penalidades. Não é mais promessa: a reforma tributária já produz efeitos operacionais reais — e a tesouraria corporativa é um dos epicentros de impacto.

Mesmo assim, muitas equipes financeiras seguem operando com premissas equivocadas. Conversamos com fontes oficiais do governo, análises da EY Brasil e materiais técnicos da Receita Federal para desmontar os cinco mitos mais perigosos para quem gere caixa corporativo em 2026.

Mito 1: "2026 é só um ano de testes — não preciso mexer em nada agora"

A realidade: é verdade que, segundo a Receita Federal, o contribuinte que emitir documentos fiscais conforme as normas vigentes estará dispensado de recolhimento do IBS e da CBS em 2026. Mas "dispensado de recolhimento" não significa "dispensado de obrigação". Desde 1º de janeiro, empresas do regime normal devem emitir notas fiscais com destaque individualizado de CBS (0,9%) e IBS (0,1%) por operação. E a partir de agosto, falhas nesse preenchimento geram penalidades reais.

Para a tesouraria, o impacto é concreto: sistemas de ERP precisam ser reconfigurados, novos campos fiscais afetam a conciliação bancária e as classificações tributárias (CST-IBS/CBS e cClassTrib) exigem revisão cadastral item por item. Quem tratar 2026 como "ano sem impacto" corre o risco de chegar a 2027 com processos desalinhados, créditos perdidos e retrabalho acumulado.

Mito 2: "O split payment só começa em 2033 — é problema para depois"

A realidade: a implantação plena do split payment está prevista de fato para a transição completa em 2033, e em 2026 ainda não há exigência de preenchimento dos campos relativos ao mecanismo nos documentos fiscais. Porém, a Nota Técnica 2026.001 já está publicada e tem caráter preparatório. O sócio de Indirect Tax da EY Brasil, Patrick Seixas, resumiu o ponto central em evento recente: "O modelo de split payment vai mudar a lógica da geração de caixa das empresas."

Na prática, o split payment significa que, no momento da liquidação financeira (Pix, cartão, boleto), o banco separará automaticamente a parcela do tributo e a enviará ao Fisco. A empresa receberá apenas o valor líquido. Segundo a EY, uma empresa que hoje vende R$ 100 com R$ 10 de tributos pode ficar com os R$ 110 em caixa por até 30 dias. Esse "float tributário" — utilizado historicamente como capital de giro — simplesmente acaba.

Por que a tesouraria não pode esperar? Porque simular cenários de fluxo de caixa sob a nova lógica exige meses de calibragem. Empresas de alto volume e baixa margem — distribuidoras, atacarejos, indústrias de bens de consumo — podem enfrentar crises de liquidez se não redimensionarem o capital de giro antes da virada.

Mito 3: "A carga tributária não muda — então o caixa fica igual"

A realidade: a Lei Complementar nº 214/2025 foi desenhada para que 2026 seja financeiramente neutro em termos de carga tributária, com a alíquota-teste de 1% compensada em relação a PIS/Cofins. Mas "carga neutra" não significa "caixa neutro". A diferença é crucial para quem gere liquidez diária.

A mudança de regime tributário altera o timing dos fluxos. Sob a não cumulatividade plena do IVA Dual, a empresa passa a depender de créditos gerados por fornecedores — e se a cadeia falhar documentalmente, o crédito não se materializa. Conforme alertou a EY, "pela primeira vez, a empresa dependerá de fatores externos à companhia para ter direito ao crédito tributário." Para setores de margens apertadas, isso pode comprometer a continuidade do negócio.

A tesouraria precisa mapear: qual o prazo médio de realização dos novos créditos? Qual a exposição a fornecedores do Simples Nacional (que geram menos crédito para o comprador)? Qual o impacto no descasamento entre recebimentos e obrigações fiscais?

Mito 4: "Isso é problema da área fiscal, não da tesouraria"

A realidade: a reforma tributária é frequentemente tratada como um projeto de compliance fiscal. Mas seus efeitos mais profundos são financeiros. O Carta Capital reportou que a fase de testes de 2026 já exige revisão de preços, contratos e capital de giro. A formação de preços deixa de considerar apenas a alíquota nominal e passa a depender do equilíbrio entre imposto devido na venda e créditos gerados nas aquisições.

Na tesouraria, isso se traduz em: (1) contratos de longo prazo que podem ter cláusulas de reajuste incompatíveis com o novo modelo; (2) projeções de fluxo de caixa que precisam considerar o recebimento líquido (sem tributo) em vez de bruto; (3) conciliação bancária com novos tipos de retenção na origem; e (4) decisões logísticas que antes eram baseadas em planejamento tributário (centros de distribuição por incentivo fiscal, por exemplo) e que agora podem se tornar desvantagens operacionais.

Segundo análise do Tax Group, a alíquota padrão do IVA Dual está estimada entre 26,5% e 28,6%. O setor de serviços — hoje tributado por ISS e PIS/Cofins cumulativo — enfrentará os maiores saltos, especialmente por ter a folha de pagamento como principal custo, que não gera crédito tributário.

Mito 5: "Minha empresa é grande — o ERP resolve sozinho"

A realidade: ERPs são condição necessária, mas insuficiente. A FENACON destacou que a mudança exige revisão profunda das rotinas, com cadastros de produtos e serviços reclassificados item por item. Erros de classificação podem resultar em inconsistências, perda de créditos e retrabalho. Mas o ERP não faz simulação financeira de impacto no fluxo de caixa, não recalcula capital de giro sob a lógica de recebimento líquido e não integra automaticamente as retenções do split payment com a posição de caixa em tempo real.

Segundo reportagem da Carta Capital, sistemas isolados representam o maior risco na era do split payment: sem integração entre banco e sistema de gestão, a conciliação financeira se torna manual, lenta e sujeita a erros que mascaram o saldo real disponível. A tesouraria precisa de uma camada de visibilidade que conecte a posição bancária, os fluxos fiscais e as projeções de caixa em uma única interface — em tempo real, não em fechamento mensal.

O que de fato importa: a reforma tributária é uma reforma de tesouraria

A mensagem central é inequívoca: a reforma tributária não é apenas uma substituição de siglas (PIS/Cofins por CBS, ICMS/ISS por IBS). É uma reestruturação da dinâmica financeira das empresas brasileiras. O split payment elimina o float tributário. A não cumulatividade plena torna o crédito dependente da cadeia. A tributação no destino altera a lógica logística. E tudo isso converge para um único ponto: a gestão de caixa corporativo precisa ser radicalmente mais sofisticada.

Os próximos meses são a janela de preparação. O Decreto nº 12.955/2026 e a Resolução CGIBS nº 6/2026 já estão em vigor. As penalidades começam em agosto. E o portfólio de investimentos das empresas — particularmente as aplicações de curto prazo usadas para rentabilizar o float tributário — precisa ser reavaliado sob a nova realidade.

Para enfrentar essa transição com controle, tesourarias precisam de visibilidade centralizada sobre posição de caixa, integração bancária em tempo real e capacidade de simular cenários com as novas regras. É exatamente isso que a Datanomik entrega: uma plataforma que conecta todos os bancos da empresa, consolida extratos, automatiza a conciliação e permite que o CFO tome decisões com base em dados — não em suposições. Quando o split payment drenar a liquidez do float, a tesouraria que já opera com visibilidade total será a que sobrevive sem sustos.

6 min
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25.05.2026

Inflação acima do teto e Novo Desenrola: o que a colisão de forças no crédito brasileiro significa para sua tesouraria

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Duas notícias se cruzaram nas últimas semanas e, juntas, configuram o cenário mais ambíguo que a tesouraria corporativa brasileira enfrentou neste ano. De um lado, o Boletim Focus registrou a nona elevação consecutiva das projeções para o IPCA em 2026 — agora em 4,91%, acima do teto de 4,5% da meta perseguida pelo Banco Central. De outro, o governo federal lançou, em 4 de maio, o Novo Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas que pretende movimentar R$ 58 bilhões em créditos e alcançar mais de 2 milhões de empresas apenas na vertente corporativa. O que parece contraditório — injetar crédito enquanto a inflação escapa do controle — é, na verdade, o reflexo de um sistema econômico operando sob pressões opostas. E para quem administra caixa, dívida e investimentos de empresas, entender essa tensão é mais do que exercício intelectual: é questão de sobrevivência financeira.

O choque inflacionário que não pede licença

A escalada do IPCA não é fenômeno difuso. Tem nome, origem e canal de transmissão identificáveis. Conforme reportou a Agência Brasil, a guerra no Oriente Médio vem pressionando os preços dos combustíveis e dos alimentos, dificultando o trabalho do Copom justamente quando o colegiado havia iniciado o ciclo de cortes da Selic. Em março, o IPCA de 0,88% surpreendeu acima de todas as projeções do mercado, com transportes e alimentação respondendo por 76% do índice. O petróleo acima de US$ 100 o barril provocou reajustes no diesel que se propagam em cadeia — frete, insumos agrícolas, bens industriais — e chegam ao consumidor com defasagem de semanas, não de meses.

Para a tesouraria, o efeito é triplo. Primeiro, contratos indexados ao IPCA — de aluguéis a debêntures — ficam mais caros. Segundo, a sinalização de que o Copom pode ser forçado a desacelerar ou interromper os cortes de juros redefine toda a curva de financiamento. Na última reunião, a Selic foi reduzida em apenas 0,25 ponto percentual, para 14,50% ao ano, e o BC informou, em ata, que "está monitorando o conflito e os efeitos de um possível prolongamento sobre a inflação". Terceiro, e mais sutil: a expectativa de IPCA a 4,91% com Selic a 13% no fim do ano — projeção do Focus — implica uma taxa real que ainda castiga o custo de capital, mas já não remunera o caixa aplicado com a mesma generosidade dos últimos trimestres. A margem de segurança diminui dos dois lados.

Desenrola Empresas: alívio real ou miragem eleitoral?

O Novo Desenrola Brasil, instituído pela Medida Provisória 1.355/2026, é o programa de crédito mais ambicioso do governo neste ano. Na vertente empresarial, as mudanças no ProCred e no Pronampe ampliam carências de 12 para 24 meses, estendem prazos de 72 para 96 meses e aumentam o limite de crédito de R$ 250 mil para R$ 500 mil para empresas com faturamento de até R$ 4,8 milhões por ano. Para microempresas lideradas por mulheres, o crédito pode chegar a 60% do faturamento anual. A tolerância à inadimplência para concessão de novos empréstimos saltou de 14 para 90 dias — uma mudança que, na prática, flexibiliza drasticamente a régua de aprovação.

O contexto não é casual. Segundo dados do Banco Central citados pela Febraban, o endividamento das famílias atingiu 49,9% da renda em fevereiro de 2026 — o maior nível da série histórica — e o país registrou 82,8 milhões de negativados em março, recorde absoluto. A inadimplência chegou a 5,3%. O Desenrola é, portanto, uma resposta política a um problema estrutural agravado por quase dois anos de Selic acima de 14%.

Para a tesouraria de empresas médias e grandes — que não são beneficiárias diretas do programa —, o Desenrola Empresas cria efeitos colaterais importantes. O primeiro é a redistribuição do risco no sistema bancário: com o governo assumindo parte das garantias via FGO (Fundo Garantidor de Operações), os bancos tendem a realocar capital regulatório, o que pode tanto liberar apetite de crédito para segmentos maiores quanto comprimir spreads em linhas direcionadas, deslocando recursos de linhas livres. A pesquisa da Febraban já indicava que o crédito direcionado a empresas deveria crescer 11,1% em 2026, contra apenas 5,9% no segmento livre — uma divergência que reflete exatamente esse movimento.

O que a tesouraria deve fazer com esse paradoxo

A combinação de inflação em alta e crédito subsidiado em expansão é rara, mas não inédita no Brasil. Ela tipicamente antecede períodos de ajuste mais severo — e a tesouraria que se antecipa ganha vantagem.

O primeiro imperativo é recalibrar a política de hedge contra inflação. Com o IPCA projetado acima do teto e o petróleo sustentado pela geopolítica, contratos indexados a índices de preço devem ser reavaliados. Empresas com dívida atrelada ao IPCA enfrentam custo efetivo crescente; quem tem receita indexada, por outro lado, precisa garantir que o repasse esteja de fato ocorrendo em tempo real, e não com defasagem que erode margem.

O segundo ponto é repensar a estrutura de financiamento. Com o Pronampe e o ProCred oferecendo taxas mistas (Selic + 6% a.a.) e prazos de até 96 meses, subsidiárias menores do grupo empresarial podem capturar crédito direcionado mais barato — desde que o cash pooling permita redistribuir essa liquidez de forma eficiente dentro da estrutura corporativa. A arbitragem entre crédito direcionado e crédito livre, neste momento, pode representar economia significativa.

O terceiro movimento é revisitar o portfólio de investimentos do caixa. Com a Selic potencialmente estacionando em 13% ao fim do ano e a inflação a 4,91%, o juro real cai para cerca de 8% — ainda elevado em termos históricos, mas em trajetória descendente. Títulos pós-fixados puros perdem atratividade relativa. A diversificação para papéis atrelados ao IPCA com spread, ou para estratégias de duration intermediária, pode proteger melhor o poder de compra do caixa operacional.

Por fim, a visibilidade sobre fluxos de caixa torna-se não apenas desejável, mas essencial. Quando a inflação surpreende para cima e o governo injeta crédito no sistema simultaneamente, a volatilidade dos recebíveis e dos pagáveis aumenta. Clientes menores podem renegociar prazos; fornecedores podem repassar custos mais rápido; linhas bancárias podem mudar de condição entre uma reunião de diretoria e outra. Sem uma visão consolidada e em tempo real de todos os saldos, movimentações e exposições bancárias, a tesouraria opera no escuro em plena tempestade.

É exatamente nessa exigência de consolidação que a Datanomik se posiciona. A plataforma oferece conectividade bancária com múltiplas instituições, permitindo que o tesoureiro veja, em uma única interface, saldos, extratos, vencimentos e posições de investimento atualizados — sem depender de planilhas alimentadas manualmente ou de portais bancários fragmentados. Em um cenário onde cada dia de atraso na informação pode significar custo real de oportunidade — seja por não capturar uma linha subsidiada a tempo, seja por manter caixa alocado em instrumento inadequado —, a centralização tecnológica da tesouraria deixa de ser projeto e passa a ser urgência operacional.

O Brasil de maio de 2026 está preso entre o impulso político de irrigar a economia com crédito barato e a realidade macroeconômica de uma inflação que desafia o Banco Central. Para a tesouraria corporativa, não se trata de escolher um lado, mas de navegar ambos ao mesmo tempo — com dados, agilidade e visão integrada.