O que os Profissionais de Tesouraria e Pagamentos Precisam Saber sobre Stablecoins Após o GENIUS Act

As stablecoins têm gerado grande interesse, especialmente com a aprovação do Guiding and Establishing National Innovation for U.S. Stablecoins Act (GENIUS Act). Mas onde as stablecoins se encaixam no futuro da tesouraria corporativa e dos pagamentos?
Durante um webinar da AFP, Jason Ekberg, sócio da Oliver Wyman, compartilhou considerações práticas para profissionais de tesouraria e pagamentos ao avaliar a adoção de stablecoins.
Casos de uso para tesouraria corporativa e pagamentos
É importante compreender primeiro como as empresas podem utilizar stablecoins dentro de suas estratégias de tesouraria e pagamentos. Ekberg destacou quatro categorias principais nas quais as stablecoins estão ganhando espaço:
- Recebimentos em mercados de difícil acesso – empresas podem receber pagamentos em tempo real em mercados emergentes onde os canais tradicionais envolvem múltiplos intermediários, custos de câmbio ou controles de moeda.
- Gestão de liquidez – tesoureiros podem usar stablecoins para consolidar caixa entre fronteiras, sem depender de horários de corte bancário, e acessar liquidez intradiária de forma mais flexível.
- Geração de rendimento – uma vez emitidas, stablecoins podem ser emprestadas (assim como títulos) para gerar retornos adicionais, incluindo rebates e outros incentivos de cross-sell.
- Pagamentos – stablecoins permitem pagamentos instantâneos a fornecedores, incluindo contratos inteligentes baseados em marcos ou escrow que liberam fundos automaticamente quando condições pré-definidas são atendidas.
“Entre os clientes com quem converso, especialmente na Europa, todas essas estratégias estão sendo consideradas para otimizar a forma como administram sua tesouraria”, disse Ekberg.
Regulação e desenvolvimentos globais
Nos Estados Unidos, o GENIUS Act divide a responsabilidade entre órgãos reguladores federais e estaduais. A formulação das regras e a supervisão ficarão principalmente a cargo do Departamento do Tesouro dos EUA e dos reguladores bancários federais, com um comitê de revisão de certificação de stablecoins composto pelo Tesouro, Fed e FDIC. Esse comitê revisará todas as emissões e aprovações estaduais, garantindo coordenação entre autoridades federais e estaduais. Do ponto de vista contábil, o U.S. GAAP e o FASB ainda precisam se pronunciar.
Globalmente, a regulação avança rapidamente — Japão, Singapura, Hong Kong, Oriente Médio e União Europeia já possuem estruturas em desenvolvimento.
“Há um arcabouço regulatório global emergente que, em breve, deve dar aos tesoureiros confiança e convicção para aproveitar o uso de stablecoins em tesourarias regionais ou globais”, disse Ekberg.
Um desafio global ainda persiste: a falta de liquidez, que limita o acesso ao mercado. No entanto, soluções estão surgindo. Em alguns mercados africanos, provedores e instituições financeiras já ajudam a converter stablecoins como USDC em moedas locais, criando off-ramps e ampliando a liquidez. Ao mesmo tempo, sistemas maiores como o SWIFT estão desenvolvendo soluções para uso transfronteiriço de stablecoins, integrando estruturas legais e regulatórias.
Escolhendo um modelo de rede
Stablecoins não operam isoladamente — elas funcionam em redes blockchain. A escolha entre uma rede privada, pública ou híbrida traz implicações importantes em termos de segurança, escalabilidade, governança e custo.
- Privadas – altamente centralizadas e controladas por poucas entidades; possuem menor risco, mas limitações de escala.
- Públicas – altamente escaláveis e globais; são open source, permitindo inovação, mas podem ter custos maiores (“gas fees”), períodos de congestionamento e governança descentralizada.
- Híbridas – equilibram os dois mundos: usam infraestrutura pública com camadas de permissão, limitando o acesso a participantes verificados. Ekberg comparou o modelo a “esculpir uma piscina privada dentro de um oceano público”.
“Na pesquisa mais recente que conduzi na Europa, a maioria dos entrevistados disse preferir soluções híbridas — eles não querem ficar presos em redes privadas e fechadas”, explicou Ekberg. “Querem liquidez, mas de forma controlada.”
Se estiver usando uma stablecoin como USDC, é possível transacionar em diferentes blockchains (como Ethereum, Polygon ou Solana), cada uma com seus próprios trade-offs de custo, velocidade e interoperabilidade. A rede escolhida dependerá de o foco da estratégia de tesouraria estar em controle, eficiência ou alcance.
Um dos esforços centrais da indústria é justamente promover interoperabilidade entre redes (“chains”) para ampliar a liquidez.
Desafios e barreiras à adoção
As empresas enfrentam barreiras claras na adoção de stablecoins. Entre as mais comuns:
- Falta de conhecimento interno e conscientização: muitos ainda não entendem como usar stablecoins, se são reguláveis ou se podem ser integradas aos ERPs e sistemas de tesouraria. A educação é essencial.
- Integração tecnológica: sistemas de ERP e tesouraria precisam de conectividade via APIs com carteiras e exchanges. Em muitos casos, a tecnologia já existe e pode ser implementada em parceria com bancos e provedores.
- Escassez de liquidez: a liquidez limitada ainda é um desafio, por isso é útil começar com ambientes fechados e casos de uso restritos — por exemplo, trabalhar com fornecedores selecionados em uma única blockchain, evitando conversões entre moedas de menor uso.
- Incerteza regulatória e de compliance: para mitigar riscos, concentre-se em jurisdições com regras claras (EUA, Japão, Singapura, Hong Kong, Dubai), conduza pilotos pequenos com envolvimento jurídico e contábil desde o início e trabalhe apenas com parceiros confiáveis e regulados.
O tratamento contábil ainda é incerto, especialmente nos EUA, onde o FASB ainda não emitiu diretrizes definitivas.
Copyright © 2025 Association for Financial Professionals, Inc.All rights reserved.


