Selic em Compasso de Espera: Como a Guerra no Oriente Médio Redesenha a Gestão de Caixa das Tesourarias Brasileiras
O conflito no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz pressionam o petróleo, travam os cortes da Selic e obrigam tesourarias a repensar liquidez.

O novo cenário macroeconômico: guerra, petróleo e juros
O agravamento do conflito no Oriente Médio em 2026 — com o fechamento parcial do Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo global — redesenhou as expectativas para a política monetária brasileira. O barril de petróleo disparou, a inflação importada ganhou tração e o Banco Central do Brasil se viu obrigado a recalibrar o ritmo dos cortes na taxa Selic.
Na última reunião do Copom, em março de 2026, o corte foi de apenas 0,25 ponto percentual — reduzindo a Selic de 15% para 14,75% ao ano —, metade do que o mercado projetava antes da escalada bélica. O comunicado foi claro: as incertezas externas, especialmente o choque energético oriundo do Oriente Médio, justificavam maior cautéla. O Boletim Focus mais recente elevou a projeção da Selic terminal para 12,13% ao final de 2026, enquanto a estimativa de inflação (IPCA) subiu para 4,36%.
Por que o Estreito de Ormuz importa para a tesouraria brasileira
O impacto do conflito sobre o Brasil vai muito além do preço na bomba de combustível. O país importa quase metade dos fertilizantes utilizados na agricultura por rotas que cruzam o Estreito de Ormuz. Considerando que o Brasil responde por cerca de 60% das exportações globais de soja e é um dos maiores exportadores de milho e açúcar, uma interrupção prolongada no fornecimento de insumos agrícolas pode comprometer safras inteiras — com reflexos diretos no câmbio, na balança comercial e na gestão de caixa corporativa.
Paralelamente, o prêmio de risco para mercados emergentes aumentou. Países com déficits gêmeos enfrentam maior pressão, embora o Brasil se mostre relativamente mais resiliente graças às suas taxas de juros reais elevadas e à produção doméstica de petróleo.
Os desafios imediatos para a gestão de caixa
Incerteza na curva de juros: Com o Copom sinalizando que pode rever o ciclo de baixa a qualquer momento, a previsibilidade do custo de financiamento despencou. Tesourarias que planejavam capturar a queda da Selic para alongar dívidas precisam agora trabalhar com cenários múltiplos.
Pressão sobre o câmbio e hedging: A alta do petróleo e o aumento da aversão ao risco global pressionam o real. Para empresas com exposição cambial, o custo do hedge se elevou significativamente. A gestão ativa de posições em derivativos cambiais tornou-se essencial.
Liquidez e alocação de caixa: Com a Selic ainda em patamares elevados, a remuneração do caixa em aplicações pós-fixadas permanece atrativa. No entanto, a volatilidade exige maior atenção à liquidez imediata. Tesourarias precisam equilibrar a captura de rendimento com a manutenção de colchões de liquidez robustos.
Estratégias recomendadas para tesourarias
- Análise de cenários e stress testing: rodar simulações com pelo menos três cenários para a Selic, cruzando com projeções de câmbio e commodities.
- Revisão da política de hedge: reavaliar as razões de cobertura para exposições cambiais, priorizando instrumentos com maior flexibilidade como opções.
- Diversificação de fontes de financiamento: reduzir a dependência de uma única linha de crédito, explorando debêntures, CRAs ou operações estruturadas.
- Monitoramento contínuo e governança: estabelecer comitês de tesouraria com frequência quinzenal enquanto a crise persistir.
Perspectivas: o que esperar nos próximos meses
O consenso de mercado aponta para uma Selic entre 12% e 12,5% ao final de 2026, mas esse cenário está condicionado a uma desescalada no Oriente Médio. Se o conflito se prolongar, o Banco Central pode ser forçado a interromper o ciclo de cortes, mantendo os juros em patamares restritivos por mais tempo.
Para as tesourarias, a mensagem é inequívoca: flexibilidade e preparo para múltiplos cenários deixaram de ser diferenciais e passaram a ser pré-requisitos. O ambiente geopoítico redefine o próprio framework de gestão de risco que sustenta as decisões de caixa.
Dados de mercado referentes a abril de 2026. Não constitui recomendação de investimento.


