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Tesouraria na era da IA: do dado à decisão

Sandro Oliveira, head de tesouraria do iFood, sobre IA, carreira e por que quem não escolher aprender terá alguém escolhendo por ele.

Tesouraria na era da IA: do dado à decisão

Existe uma frase que atravessa a conversa deste episódio e que resume o tamanho do momento que a tesouraria — e o mercado corporativo como um todo — está vivendo: você não está mais autorizado a não saber fazer alguma coisa. Não é ameaça, não é discurso motivacional. É constatação. Quem senta na cadeira e diz isso é Sandro Oliveira, head de tesouraria do iFood, um profissional que se define, sem rodeios, como diferente do que era há dois meses.

Sandro tem uma trajetória pouco convencional. Queria fazer letras, virou pai aos 19 anos, decidiu ir para contabilidade em busca de estabilidade, começou no departamento pessoal de um escritório e, quase por acidente, chegou à tesouraria via GPA no auge do e-commerce brasileiro. Depois vieram BSL, Cielo, Buser e, hoje, o iFood — uma empresa que assumiu publicamente a meta de ganhar 50% de eficiência com inteligência artificial. É desse lugar, e com essa bagagem, que ele conversa com Douglas Oliveira sobre o que muda quando o caixa passa a ser gerido com IA no meio do processo.

O que se desenha ao longo do episódio é menos uma aula sobre ferramentas e mais um retrato honesto de uma profissão em plena mutação. Excitante e angustiante ao mesmo tempo, como Sandro repete algumas vezes. E, sobretudo, sem volta.

Uma trajetória feita de saltos entre indústrias

Antes de falar de IA, vale entender de onde vem a leitura de Sandro. Ele começou no departamento pessoal, migrou para tesouraria numa aposta de risco calculado no GPA — ambiente que ele descreve como um MBA por mês —, passou por uma investida do Pátria no setor de saúde, viveu o auge da Cielo movimentando 10% do PIB e, mais recentemente, chegou ao iFood via ecossistema Prosus.

Cada uma dessas passagens moldou uma camada distinta do profissional. O varejo ensinou velocidade e caixa dinâmico. A investida de private equity ensinou a construir do zero, tomando decisão todos os dias sem sistema, sem processo, no Excel. A Cielo ensinou mercado de capitais, dívida diversificada e conversas sofisticadas com bancos que agiam como advisors. Mas foi a transição para empresas com DNA de tecnologia que, segundo ele, mais o transformou. Nas indústrias tradicionais, as dores eram concretas, mas o perímetro parecia menor. Na tecnologia, tudo vira exponencial — inclusive os erros.

É desse acúmulo que sai uma ideia que atravessa toda a conversa: quem trabalha com tesouraria sempre teve, à disposição, ferramentas para se diferenciar. VBA, SQL, Python, Apps Script. A diferença é que, até pouco tempo atrás, isso era uma escolha. Agora, não é mais.

O momento sem precedente: quando a escolha deixa de existir

Douglas provoca Sandro com uma pergunta direta: existe algum precedente histórico para o que estamos vivendo com IA? A resposta é elegante. Do ponto de vista tecnológico puro, talvez não. Mas se ampliarmos a lente para eventos que reorganizaram a sociedade — a pandemia é o exemplo mais fresco —, sim, o ser humano já passou por rupturas culturais grandes. A diferença é a velocidade e a intensidade.

Sandro usa uma metáfora forte: como no gráfico do crescimento populacional dos últimos cem anos, a curva deu um salto que não volta. Não vai acontecer de a IA "não vingar". Não vai acontecer de o mercado voltar a operar como operava em 2022. E, se é assim, o processo de adaptação deixa de ser opcional. Ele descreve isso, sem cerimônia, como um novo momento de seleção natural.

É aqui que aparece a frase de impacto que dá tom ao episódio. Se você não escolheu, alguém escolheu por você. Ou você acompanha, ou você acompanha. Não porque alguém está sendo cruel, mas porque a barra do que se espera de um profissional de finanças subiu — e continua subindo em ritmo semanal.

O paradoxo da tesouraria letrada em tecnologia

Um dos pontos mais interessantes da conversa é a desconstrução de uma expectativa comum. Muita gente imagina que a IA vai reduzir a necessidade de o profissional de tesouraria entender de tecnologia. Afinal, se a máquina codifica sozinha, por que aprender infraestrutura, banco de dados, variáveis, tokens?

Sandro e Douglas convergem em uma tese oposta: é exatamente o contrário. A IA corta o caminho da sintaxe, mas expõe o profissional à necessidade de entender arquitetura. De onde vem o dado, como ele se conecta, o que é um select, o que é um servidor, como se hospeda uma aplicação, o que significa deixar um token exposto no código. Sandro conta, com bom humor, que já levou cascudo por deixar credenciais do Databricks à mostra em scripts do Apps Script — e que foi assim, na prática, que entendeu o que é uma variável de ambiente.

A ferramenta democratiza a execução, mas não a compreensão. E é a compreensão que separa quem apenas roda um prompt de quem entrega uma solução robusta ao negócio. Ele destaca ainda o quanto o Apps Script, dentro do Google Workspace, é subvalorizado — e quantos fluxos de tesouraria uma empresa média poderia automatizar apenas explorando o que já tem contratado.

Times enxutos, autônomos e com débito e crédito na ponta da língua

Quando assume um time, Sandro tem três exigências que ele reforçou especialmente na Cielo e continua praticando. A primeira: se um número passa pela sua mão, você precisa saber o débito e o crédito dele. Não como especialista em contabilidade, mas com autonomia para validar o próprio trabalho. A segunda: você precisa saber explicar, para alguém de fora, o que a empresa faz e como o ciclo financeiro funciona. A terceira: select from where. Nunca depender de ninguém para buscar a informação que você precisa.

Esse tripé — noção contábil, entendimento de negócio e autonomia de dados — cria times que voam sozinhos. E, com IA no meio do processo, essa autonomia se potencializa. Sandro descreve o iFood como um ambiente onde apresentar PPT virou quase piada. A cultura é abrir a tela, mostrar o que está funcionando, gravar um áudio, pedir para o Cloud gerar um HTML com o diagrama. Rapidez, tangibilidade, iteração.

O reflexo prático disso na gestão é curioso. Ele conta que, ao precisar reduzir o time, dois ou três WhatsApps foram suficientes para realocar pessoas em outras áreas da empresa — porque a régua alta funcionou como marketing interno. A tesouraria virou reserva de talentos.

Curiosidade, relacionamento e profundidade: o kit de sobrevivência

Perguntado sobre o que diria a quem está começando carreira em finanças, Sandro é econômico e direto. Curiosidade em primeiro lugar — sem ela, nada funciona. Relacionamento interno em segundo, porque foi conversando com times de tecnologia, produto e dados que ele aprendeu boa parte do que sabe hoje. E, em terceiro, profundidade seletiva: escolha alguns temas para ir fundo, para nunca sair de uma reunião sem resposta, mesmo que seja "trago amanhã".

Ele lembra de uma reunião no início da passagem pela Prosus em que saiu preocupado — não por não ter entendido, mas exatamente por ter entendido tudo. É bom estar na sala, ele resume. A preocupação é de quem não está.

Sobre contratação, Sandro compartilha um episódio revelador. Contratou um analista júnior sem quase perguntar sobre a experiência técnica dele. O que o convenceu foi a resposta imediata quando perguntou quanto a mãe cobrava por uma faxina: o rapaz sabia o valor porque ajudava a mãe nos fins de semana. Skill técnico se ensina. Fome, cabeça e vontade não.

O que preocupa e o que empolga daqui para frente

No encerramento, Douglas faz duas perguntas incômodas: o que preocupa e o que fica de recado. Sandro separa as respostas em duas dimensões. Profissionalmente, ele diz não sentir muita angústia. Pelo contrário: quer chegar ao ponto de ter terminado as próprias atividades para descobrir o que ainda não sabe que não sabe. É o inverso do medo de ser substituído — é o desejo de ser liberado para o próximo problema.

Como pai, a leitura é outra. A preocupação com os filhos é menos técnica e mais relacional: se sabem se virar, se sabem conversar, se se adaptam. E, olhando o mundo, o que o angustia é a resistência humana à mudança. As pessoas vão sofrer bastante antes de se adaptar, ele reconhece.

Mas fecha com uma referência do Cavaleiro das Trevas que resume bem o espírito da conversa: o ponto mais escuro da noite é exatamente antes de começar a amanhecer. Vai escurecer mais um bocado. E, depois, vai amanhecer.

Um episódio para ouvir com calma, anotar frases e revisitar. E, principalmente, para quem trabalha com tesouraria e finanças começar a se perguntar, sem rodeios, quantas linhas adicionou no próprio currículo nos últimos seis meses. Ou nas últimas seis semanas.

Sobre o convidado

Head de tesouraria do iFood, contador de formação e com passagens por GPA, BSL (investida do Pátria), Cielo e Buser. Construiu carreira transitando entre varejo, saúde, meios de pagamento e tecnologia, sempre com foco em times enxutos, autônomos e letrados em dados.

🎧 Ouça o episódio completo:

▶️ YouTube

O Caixa é Rei é um projeto da Datanomik. Criamos pontes entre profissionais de finanças e tesouraria para compartilhar experiências que inspiram e transformam.

Imagens do episódio

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