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Onda de RJs: o risco que a tesouraria ignora

Casas Bahia, Marabraz e a onda de recuperações judiciais exigem que a tesouraria revise exposição a contrapartes e proteja o caixa.

Onda de RJs: o risco que a tesouraria ignora

Na mesma semana, duas varejistas tradicionais do país pediram recuperação judicial. O Grupo Casas Bahia protocolou RJ com dívidas de R$ 17,3 bilhões; a Marabraz, com R$ 140 milhões. Os dois casos não são incidentes isolados.

Segundo levantamento da consultoria RGF, o número de empresas em recuperação judicial saltou 65,8% entre o segundo trimestre de 2023 e o segundo trimestre de 2026, de 3.823 para 6.341 CNPJs. No varejo, os pedidos subiram 20,4% só no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2025.

O cenário macro explica parte da história: Selic a 14%, crédito bancário em retração de 0,9% no primeiro semestre e inadimplência de pessoas jurídicas em 4%, bem acima dos 1,5% de dezembro de 2020. Mas o que isso significa, na prática, para quem opera a tesouraria de uma empresa saudável?

O briefing desta semana é sobre risco de contraparte, o elo da cadeia que costuma ser ignorado até que uma fatura não seja paga.

📌 O que aconteceu esta semana

Casas Bahia pede recuperação judicial com R$ 17,3 bilhões em dívidas

Conforme reportagem do Brazil Journal, a varejista protocolou o pedido de RJ no dia 16 de agosto no TJSP e negocia um financiamento DIP (debtor-in-possession) de R$ 1 bilhão com Bradesco e Banco do Brasil para sustentar a operação até 2027. A empresa pretende usar transações tributárias para alongar até R$ 2,5 bilhões em passivos. Este é o segundo processo de reestruturação da companhia em dois anos, após a recuperação extrajudicial iniciada em 2024.

O impacto na tesouraria de fornecedores e parceiros é direto. A RJ suspende cobranças e congela recebíveis. Qualquer empresa que tenha a Casas Bahia como cliente, fornecedor logístico ou parceiro de marketplace precisa reavaliar imediatamente a exposição. Quem tinha duplicatas a receber pode ver esses valores entrarem na fila de credores quirografários, com prazo e haircut indefinidos.

Marabraz segue o mesmo caminho com R$ 140 milhões em dívidas

Conforme reportado pela Capital Aberto, a rede de móveis pediu RJ um dia depois da Casas Bahia. O principal fator agravante foi a perda de acesso a garantias imobiliárias da família controladora, o que cortou linhas de crédito tradicionais e forçou a empresa a trocar financiamentos baratos por operações substancialmente mais caras, comprometendo o capital de giro.

Para a tesouraria, o caso Marabraz ilustra um risco sistêmico menos visível: empresas médias que perdem acesso a crédito não sinalizam a crise com antecedência. Quando a RJ é protocolada, a contraparte já está inadimplente há meses. A janela de reação é curta.

RJs sobem 66% em 3 anos e atingem todos os setores

Segundo dados da RGF-BIZDOC reportados pelo Diário do Comércio, o agronegócio lidera a onda de RJs com salto de 66% nos últimos 12 meses, atingindo 1.265 empresas. O varejo e o segmento de transporte e logística completam o trio mais afetado. A taxa de inadimplência das pessoas jurídicas está em 4%, e a concessão de crédito bancário recuou 0,9% no primeiro semestre, segundo o Banco Central.

O quadro é de uma crise silenciosa de liquidez corporativa. Mesmo com os cortes recentes na Selic, de 15% para 14%, o alívio não chega ao custo real do crédito com a velocidade necessária. A defasagem entre a queda da taxa básica e o barateamento efetivo das linhas de capital de giro pode levar de 6 a 12 meses, período no qual mais empresas podem sucumbir.

O que muda na prática para a tesouraria

1. Revisão imediata da exposição a contrapartes

A tesouraria precisa mapear a carteira de recebíveis por contraparte e cruzar com indicadores de risco: atrasos no pagamento, pedidos de renegociação, alterações em ratings de crédito, presença em listas de protesto e notícias sobre reestruturação. O monitoramento precisa ser contínuo, não trimestral.

2. Política de crédito comercial mais restritiva

Empresas que vendem a prazo para varejistas, distribuidores ou operadores logísticos devem reavaliar limites de crédito e exigir garantias adicionais. A prática de conceder prazos longos sem seguro de crédito ou cessão de recebíveis se torna arriscada quando 26 a cada 1.000 empresas do agro e uma fatia crescente do varejo estão em RJ.

3. Diversificação do risco de concentração

Tesourarias com mais de 15-20% dos recebíveis concentrados em uma única contraparte ou grupo econômico correm risco desproporcional. A RJ da Casas Bahia afeta não apenas a varejista, mas 9 subsidiárias incluídas no processo. A concentração precisa ser medida por grupo econômico, não por CNPJ individual.

4. Liquidez como escudo, não como luxo

Manter reservas de caixa mais robustas e linhas de crédito pré-aprovadas é a melhor defesa contra o efeito cascata de uma RJ de contraparte. Quando um grande cliente entra em recuperação, o impacto no fluxo de caixa é imediato, mas a recomposição via judicial pode levar anos.

O que monitorar na semana que vem

Decisão do TJSP sobre o pedido de Casas Bahia: a concessão do processamento da RJ e eventual deferimento de tutelas de urgência definirão o prazo de suspensão de cobranças e o cronograma de apresentação do plano de recuperação.

Dados de crédito do Banco Central referentes a julho: a estatística de concessão de crédito e inadimplência PJ confirmará se a retração está se aprofundando ou estabilizando.

Ata do Copom de agosto e sinalização para setembro: o tom da ata, que o mercado leu como "marginalmente mais dovish", e a possibilidade de corte adicional de 0,25 p.p. na Selic para 13,75% impactam diretamente o custo de refinanciamento das empresas em dificuldade.

Novos pedidos de RJ no varejo e agro: a concentração de dois grandes pedidos na mesma semana sugere que outros casos podem emergir nas próximas semanas, especialmente entre empresas com vencimentos de dívida no segundo semestre.

Como a Datanomik endereça esse risco

Proteger a tesouraria do risco de contraparte exige visibilidade em tempo real sobre o caixa e a carteira de recebíveis. É exatamente isso que a Datanomik entrega. A plataforma consolida saldos e movimentações de todos os bancos via conectividade bancária, permitindo que a tesouraria identifique concentrações de exposição, atrasos de recebimento e variações atípicas no fluxo antes que se tornem perdas irreversíveis.

Com relatórios financeiros automatizados e integração de dados bancários em um painel único, a decisão de restringir crédito comercial, acionar garantias ou realocar caixa deixa de depender de planilhas defasadas e passa a ser tomada com informação atualizada. Em um ambiente onde 6.341 empresas estão em recuperação judicial, a visibilidade operacional não é diferencial. É sobrevivência.

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